TCC - NEUROSES -Você É neurótico ou ESTÁ neurótico?

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
PORTO ALEGRE, MAIO DE 2003.


Sociedade psicanalítica ortodoxa do brasil
CURSO DE FORMAÇÃO DE PSICANALISTA CLÍNICO
NEUROSES
MARIÂNGELA SCARTON
PORTO ALEGRE, MAIO 2003
SOCIEDADE PSICANALÍTICA ORTODOXA DO BRASIL
CURSO DE FORMAÇÃO DE PSICANALISTA CLÍNICO
NEUROSES
MARIÂNGELA SCARTON
Psicanálise
Porto Alegre, Maio 2003
Orientador:
UYRATAN DE CARVALHO
Mestre EM TEORIA PSICANALÍTICA






AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos os professores das disciplinas do curso de formação da SPOB em especial aos mestres: Dr.Uyratan de Carvalho e Dr.Luiz Vitório Cichoski pelos valiosos ensinamentos e à Dra.Ivone Boechat de Oliveira pelas palavras de otimismo e incentivo.

SUMÁRIO
SUMÁRIO............................................................................................................................... IV
INTRODUÇÃO....................................................................................................................... VI
1 DEFINIÇÕES.................................................................................................................... 8
2 NEUROSES ATUAIS..................................................................................................... 13
2.1 NEUROSE DE ANGÚSTIA OU DE ANSIEDADE.................................................. 13
2.2 NEUROSE HIPOCONDRÍACA.............................................................................. 16
2.2.1 Transtorno Hipocondríaco............................................................................... 18
2.3 NEURASTENIA....................................................................................................... 18
3 PSICONEUROSES......................................................................................................... 20
3.1 NEUROSE FÓBICA................................................................................................. 20
3.1.1 Fobias............................................................................................................... 21
3.2 NEUROSE OBSSESSIVO-COMPULSIVA............................................................ 25
3.2.1 Transtorno Obssessivo Compulsivo - TOC...................................................... 30
3.3 NEUROSE HISTÉRICA........................................................................................... 34
3.3.1 Histeria............................................................................................................. 34
3.3.2 Neurose histérica conversiva............................................................................ 39
3.3.3 Neurose histérica dissociativa.......................................................................... 40
3.4 NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA......................................................................... 41
3.5 NEUROSE DE CONTRATRANSFERÊNCIA......................................................... 45
3.6 NEUROSE NARCÍSICA.......................................................................................... 46
CONCLUSÃO......................................................................................................................... 49
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................... 51

INTRODUÇÃO
A presente monografia faz parte do trabalho de conclusão do curso “Formação de Psicanalista Clínico” ministrado pela Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil – SPOB.
A psicanálise é oriunda das descobertas clínicas resultantes dos estudos das neuroses, em vista disso, o psicanalista, em seu consultório, se depara nada menos com os “conflitos neuróticos” de seus pacientes. É o conflito neurótico que provoca a obstrução da descarga dos impulsos instituais reprimidos. O Conflito neurótico produz-se entre o Ego e o ID.Com isso, o Ego fica enfraquecido e cada vez menos capacitado para administrar suas tensões.Os sintomas neuróticos constituem o núcleo de todas as neuroses.
Para o analista, o estudo das neuroses fornecem o mais frutífero dos estudos no reino dos fenômenos mentais e facilita o estudo de outros fenômenos mentais. A psicanálise se ocupa com as neuroses ou com os fenômenos instintivos e emocionais.
A teoria da neurose é o supra sumo para a prática terapêutica psicanalítica; fornece o alicerce para o trabalho prático ulterior, representando tentativa de averiguar aquilo que é regular na etiologia, nas manifestações e no curso clínico das neuroses, de forma a munir-se de um método causalmente dirigido de terapia e profilaxia.
Com este trabalho, procuramos proporcionar algumas definições para a neurose, bem como apresentar o grupo de neuroses principais das ditas “Neuroses Atuais” e também das “Psiconeuroses”.
1 DEFINIÇÕES
Podemos conceituar Neurose como transtorno psíquico, sem base orgânica constatável, oriundo de conflitos intrapsíquicos, que cursa sem desestruturar a personalidade do indivíduo, mas que inibe suas condutas sociais.
A ausência de uma base orgânica constatável fez com que praticamente cada escola teórica da Psicologia expusesse sua explicação sobre a origem da neurose. A Reflexologia, por exemplo, defende que o sintoma neurótico é fruto de um condicionamento. Kretschmer e sua teoria constitucionalista nos fala de uma imaturidade biológica congênita que tornaria a pessoa mais suscetível à neurotização. As teorias sociogênicas apontam o stress ambiental e familiar como componentes de uma pressão social que levaria à neurose. De todas estas, no entanto, é a Psicanálise que apresenta uma compreensão mais consistente e aceita dos quadros neuróticos.
Desde os seus trabalhos iniciais com Charcot, quando utilizava a hipnose no tratamento das paralisias histéricas, Freud observou que eram as lembranças trazidas durante o transe hipnótico que desencadeavam a forte reação emocional, chamada catarse. Por outro lado, essas lembranças não apareciam se o indivíduo estivesse perfeitamente lúcido, demonstrando que elas existiam mas não estavam disponíveis à consciência. Como, após reviver emocionalmente esses fatos passados, o paciente se via livre de seus sintomas, Freud passou a afirmar que a origem da neurose estaria em traumas passados, possivelmente na infância, perdidos na memória. Essas experiências iniciais serviram de prólogo para toda a estruturação da Psicanálise.
Para a Psicanálise, na Neurose o "órgão" doente é o Ego, que se mostra incapaz de realizar sua tarefa de satisfazer harmonicamente nossos desejos e necessidades.
A questão central das Neuroses é a repressão, aquele mecanismo de defesa em que o ego procura manter fora do seu território todos os impulsos inaceitáveis. Assim, esses impulsos inaceitáveis na infância são reprimidos mas não desaparecem: sua pressão é sentida de tempos em tempos e outras medidas têm que ser adotadas para mantê-los fora da consciência. Eles podem aflorar sobre a forma de sonhos, chistes, atos falhos ou sintomas neuróticos (ansiedades, medos irracionais, obsessões).
Muitas vezes estes impulsos permanecem reprimidos durante muito tempo na vida do indivíduo e, de repente, um determinado fato o faz reviver.
É preciso deixar claro que o sintoma mais importante de todos os quadros neuróticos, independentes de sua forma clínica, é a ansiedade.
Sendo um transtorno que reconhecidamente não tem fundo orgânico, as Neuroses evidentemente vão se beneficiar muito mais dos tratamentos psicoterápicos. No entanto em alguns momentos o uso de medicação ansiolítica é fundamental, até no sentido inclusive de manter o paciente permeável à psicoterapia. Assim, a um paciente em forte crise de ansiedade não será possível uma abordagem psicoterápica.
Neurose é uma maneira da pessoa SER e de reagir à vida. A pessoa É neurótica e não ESTÁ neurótica.
Essa maneira de ser neurótica significa que a pessoa reage à vida através de reações vivenciais não normais; seja no sentido dessas reações serem desproporcionais, seja pelo fato de serem muito duradouras, seja pelo fato delas existirem mesmo que não exista uma causa vivencial aparente.
Essa maneira exagerada de reagir leva a pessoa neurótica a adotar uma serie de comportamentos (evita lugares, faz atitudes para alívio da ansiedade... etc).
O neurótico tem plena consciência do seu problema e, muitas vezes, sente-se impotente para modificá-lo.
Para Freud, a neurose resultaria de um conflito entre duas forças antagônicas, um desejo de prazer (pulsão) e o medo de punição (moral e social).
Freud (1905), faz uma busca na etiologia das neuroses, pois segundo ele, é preciso reconhecer que na medida em que passa-se a falar em causas determinantes das neuroses, a etiologia das mesmas é um fator que não pode ser ignorado, e de acordo com a origem da histeria, o mesmo diz que, "Os fatores sexuais é que podem produzir quadros de distúrbios neuróticos."
Neurose é um quadro onde a pessoa geralmente tem dificuldades de adaptação, apesar de ser possível trabalhar, estudar, ter vida amorosa, estar bem entrosada com a realidade. A pessoa neurótica vive permanentemente em conflitos psíquicos, não conseguindo, desta forma, aproveitar prazerosamente a vida. Geralmente inicia-se na infância e acompanha o indivíduo por toda a vida.
A alteração de comportamento que atualmente é chamada de Transtorno de Ansiedade e Somatização, era até bem pouco tempo chamada de Neurose, de fato ainda é assim chamado e não há problemas nisso, já que essa é uma alteração conhecida da humanidade há séculos, e desde o século passado, vinha assim sendo chamada.
Eis algumas das definições para o transtorno:
"Certo grupo de afecções, contrárias à natureza dos sentimentos e do movimento, às quais não dependem de lesão tópica dos órgãos e sim de alterações gerais de todo o sistema, com repercussões especialmente sobre a motilidade e o pensamento". (Cullen, 1772)
Pinel (1819) englobou na definição acima estados mórbidos de outra natureza, como tétano, raiva, neuralgias, etc
"Neuroses são doenças da personalidade, caracterizadas por conflitos intrapsíquicos que inibem as condutas sociais." (Janet)
Freud formulou a Teoria Econômica das Neuroses, ligada à quantidade dos afetos (libido), que o Ego pode suportar. Criou as noções de inconsciente, Id, Ego e Superego, enfatizou o papel da primeira infância, da energia sexual e da agressividade. Formulou as fases do desenvolvimento psíquico e a formação do caráter neurótico, quando da fixação da libido em uma das fases.
A psicanálise fala de um caráter neurótico, quando há fixação da libido em umas das fases do desenvolvimento.
Traumas de infância, grandes sustos, perdas afetivas ou mesmo materiais também podem desencadear quadros ansiosos importantes, mas não chegariam a ser causas específicas A tentativa de se livrar deste mundo de sensações e sentimentos, que tenha características desequilibradas, desajustadas, são denominadas de neuroses.
2 NEUROSES ATUAIS
2.1 NEUROSE DE ANGÚSTIA OU DE ANSIEDADE
Nesta forma clínica a sintomatologia é a expressão de um estado de ansiedade permanente; o paciente mantém-se em um estado constante de alerta e medo, como se algo estivesse sempre para lhe acontecer. FREUD chamava a esse tipo de neurose atual, por entender que estavam unidas a um substrato orgânico ativo. Como aqui a angústia aparece de uma forma nítida e definida, enquanto que nas outras formas ela aparece de um modo mais elaborado, há um entendimento que a neurose de angústia se constituiria no tronco comum da organização neurótica, que caminharia para formas mais organizadas e estruturadas.
A neurose de ansiedade é o resultado da experimentação constante e intensa da mesma, acabando esta, sendo condicionada e passando a desencadear-se ao menor ruído estranho que o indivíduo perceba ou, frente a situações muitas vezes prazerosas e seguras, mas que por intuição, o sujeito julga que tornar-se-á dolorosa e insegura.
A neurose de ansiedade se caracteriza pelos seguintes sintomas:
a) angústia ou ansiedade constante;
b) excitação e euforia constante, sensação de estar elétrico;
c) insônia;
d) preocupações constantes;
e) temores excessivos;
f) sintomas físicos: sudorese, taquicardia, tremores, anorexia ou hiperorexia, conforme o padrão de personalidade do indivíduo, hiperpnéia, alterações psicossomáticas.
A etiologia da neurose de ansiedade pode estar ligada ao padrão de personalidade, educação recebida, hipersecreção de adrenalina ou comprometimentos cognitivos.
Caracteriza-se, basicamente, por uma dificuldade em lidar com o momento presente, o que produz uma sensação de desastre iminente ou medo intenso.
Muitas vezes o quadro se inicia com crises de angústia que vão se intensificando ou se tornando mais freqüente. Essas crise têm as seguintes características:
Sensação de falta de ar (dispnéia), acessos de tosse ou soluço, palpitações cardíacas, dores no peito, dormências, sensação de "bolo" na garganta, náuseas, vômitos, diarréia, secura na boca, tremores, dores articulares, sudorese, vertigem e desmaio, dor de cabeça, etc.
Sensação de espera do perigo vivida com inquietação, apreensão, dúvida, desalento, temor, medo do passado (lamentações), do presente (dúvida) e do futuro (ameaça, pressentimentos).
Esta espera pelo perigo faz com que o indivíduo não consiga ordenar suas perspectivas. Na verdade, parece que o ansioso não só se encontra ameaçado, mas experimenta quanto ao perigo uma atração cruel.
Os sintomas somáticos presentes nas crises, quando crônicos vão levar a lesões nos órgãos correspondentes, constituindo-se em transtornos psicossomáticos como úlceras, gastrite, asma, hipertensão arterial, artrites, enxaquecas, etc. Além disso vão aparecer transtornos do sono, com dificuldade em conciliar o sono ou sono frágil. São freqüentes ainda a hiperemotividade, com o indivíduo reagindo a todos os estímulos com excessivos sinais de emoção.
As alterações psíquicas se atenuam restando um sentimento de inutilidade, incapacidade e impotência. Há um comportamento de pedido de ajuda, as vezes confiante e agressivo, dependente e exigente, seguindo um modo de reagir verdadeiramente infantil.
Todos estes sintomas se instalam sobre um tipo de personalidade alterada, cujas características vão estar presente mesmo quando ainda não ocorreram os sintomas. São pessoas que desde a infância mostram-se ansiosas, inquietas, solicitando sempre proteção. Durante o desenvolvimento vão tendo na mãe, professores, amigos, chefes, etc, os suportes para suas inseguranças. Todas as suas relações na vida adulta estão baseadas na busca de amor e proteção. Por outro lado qualquer frustração é motivo para o surgimento de crise.
Esta sem dúvida é a mais comum e característica neurose de nossos tempos.
A característica externa, visível fundamental da neurose ansiosa é a pressa, é a vontade que a pessoa tem que as coisas acabem rápido, que elas se concluam. Isto acontece, pois o sentimento interior inconsciente é de medo, de pressentimento de que algo de ruim possa acontecer, que algo não vai dar certo e que por isto ele deve se apressar para que o fato no qual ele está envolvido se conclua rapidamente para que ele possa se ver aliviado da sensação de perigo.
Assim os sintomas principais da neurose ansiosa são a inquietação motora, sensações de angústia (aperto no peito ou na garganta), sudorese, taquicardia, mal estar generalizado, a pessoa não consegue ficar parada, as vezes rói unhas, puxa o cabelo, precisa ficar mexendo em algo, permanece balançando pernas e braços. Também podem ser pessoas muito falantes (compulsão para falar) e muita dificuldade de ouvir, absorver e entender.
2.2 NEUROSE HIPOCONDRÍACA
É a neurose caracterizada pela sensação de estar constantemente doente, possuindo os seguintes sintomas:
a) mania de doença;
b) sensações variadas à nível de órgãos;
c) expressa ansiedade e dificuldade através de sintomas orgânicos.
A neurose hipocondríaca, também é conhecida como a neurose de doenças. O que acontece nesta neurose é que a pessoa tem uma sensibilidade corporal exacerbada pelo fato de ser muito centrado em seu próprio corpo. No fundo o hipocondríaco, como em todas as outras neuroses, tem uma ansiedade e uma dificuldade muito grande de entrar em contato com pessoas e situações que ele não se sente controlando e com isto vai cada vez mais centrando a sua atenção e percepção no próprio funcionamento corporal. Assim qualquer alteração fisiológica (mudança do batimento cardíaco, ruídos do funcionamento digestivo e outros) é rapidamente notada e por ele ser controlador e pessimista, interpreta como risco eminente de algo fora de controle e que pode levá-lo à morte ou conseqüências muito graves e irreversíveis. Por isso está sempre tomando medicações o tempo todo pois se acha e se sente doente, apavorado com o risco de ter uma doença grave e querendo fazer tudo para eliminar este sintoma que desencadeia toda esta gama de sentimentos.
Está diretamente ligada a quadros de ansiedade e principalmente de depressão. São pessoas profundamente pessimistas, lotadas de sentimentos de culpa que podem ser conscientes ou inconscientes e que por isto acham que merecem um castigo ( que seria a doença tão temida). Vêem tudo sob uma perspectiva sombria e acabam se viciando na egoísta e permanente atitude de só olharem para o próprio umbigo.
O tratamento desta neurose, tem que ser feito através de psicoterapia profunda, para que a pessoa consiga enxergar sentimentos e conflitos que são os verdadeiros desencadeantes de seus sintomas e cismas. Se o pessimismo for profundo e arraigado o uso de medicações antidepressivas são essenciais para uma rápida melhoria do quadro . O quadro pode acontecer isoladamente ou acompanhando quadros de Depressão ( onde chega ocorrer o Delírio hipocondríaco) ou de neuroses obssessivo compulsivas
2.2.1 Transtorno Hipocondríaco
O paciente apresenta preocupação persistente em ter um ou mais transtornos físicos sérios e progressivos. Há queixas somáticas persistentes. Exagero de sintomas banais. Focalização em um ou dois órgãos ou sistemas. Depressão e ansiedade são freqüentes. É raro antes dos 50 anos, tem curso crônico e flutuante.
2.3 NEURASTENIA
Quando o estado neurótico se caracteriza menos pela angústia e mais por outras descargas de emergência, associadas a vários sintomas, é costume falar em neurastenia, estado, que psicanaliticamente, não se define com precisão. Os sintomas físicos da neurastenia variam muito conforme a constituição e a história da personalidade. Ocupam o primeiro plano, os sintomas espásticos retentivos, exprimindo tentativas de bloquear as descargas, por exemplo, espasmos musculares e vasomotores, constipação e cefaléia ou descargas de emergência involuntárias explosivas como diarréia, suores, tremores e inquietação.
Ocorre fadiga aumentada após esforço mental, associada à diminuição do desempenho ocupacional ou ineficiência de adaptação de tarefas diárias. Ou podem ocorrer sentimentos de fraqueza ou exaustão corporal ou física após esforços mínimos. Podem ocorrer depressão e ansiedade. Outros sintomas: dores musculares, tonturas, cefaléias tensionais, perturbações do sono, incapacidade de relaxar, parestesias espinhais, empobrecimento da atividade sexual.
Freud, inclinou-se a crer que os sintomas neurastênicos fossem resultantes de masturbação excessiva: “A neurastenia resulta de orgasmo insuficiente; e ocorre quando a masturbação veio a tornar-se insuficiente, ou seja, quando angústia e sentimentos de culpa transtornam o caráter satisfatório da masturbação”.
3 PSICONEUROSES
3.1 NEUROSE FÓBICA
Na neurose fóbica a manifestação de ansiedade acontece através de um medo. Este medo pode ser uma coisa localizada e facilmente identificada.
Algumas vezes nem é preciso ter uma experiência traumática, basta que o objeto em questão seja associado a sensações negativas, verdadeiras cismas que acabam provocando a fobia.
Nesta forma clínica a angústia está sistematizada sobre pessoas, objetos, situações, que se convertem no objeto de um terror paralisante (fobia). Assim o indivíduo se "livra" da angústia localizando-a em um espaço específico e externo a ele: é o mecanismo do deslocamento. A fobia é, pois, uma defesa contra a angústia.
Na clínica das Neuroses podemos encontrar os mais variados objetos fóbicos, no entanto algumas situações são mais freqüentes: o medo de altura, de lugares fechados, de escuro, de meios de transporte, de animais, etc.
Não apenas o condicionamento pode determinar a neurose fóbica, mas também os deslocamentos de conflitos de um objeto desejado e proibido ou temido, mas aceito obrigatoriamente.
FREUD nos descreve o caso do pequeno Hans, ilustrando com clareza a fobia neurótica determinada por deslocamentos de conflito e ansiedade de uma situação de relação para uma situação simbólica, mas real.
3.1.1 Fobias
A palavra fobia deriva de Phobos, deusa grega do medo.
Uma fobia é um medo persistente e irracional que resulta em evitamento consciente do objeto, atividade ou situação específica temidos.
O DSM-IV relaciona à fobia social e à fobia específica além da agorafobia.
A fobia social é definida como sendo o medo de humilhação ou desconforto em locais públicos. As fobias sociais incluem o medo de falar em público, comer em restaurantes, realizar apresentações teatrais ou musicais em público, etc.
A fobia social difere da agorafobia, pois, nesta última, os pacientes não ficam muito preocupados com a reação de outras pessoas ao seu comportamento.
A fobia social é menos comum que a fobia simples e afeta mais mulheres do que homens. Tende a aparecer na adolescência, mais freqüentemente.
As fobias específicas são fobias restritas a situações ou objetos específicos, como certos animais, altura, trovão, escuridão, espaços fechados, visão de sangue, etc. Também as mulheres são mais afetadas.
Freud levantou a hipótese de que a função primária da ansiedade é avisar o ego de que um impulso inconsciente proibido está exigindo expressão consciente, assim, alertando-o para fortalecer e posicionar suas defesas contra a força instintiva ameaçadora. Freud achava que o transtorno fóbico era conseqüência de conflitos centralizados em um complexo de Édipo mal resolvido, o poder do ego torna-se, então, suficiente apenas para manter o impulso fora da consciência imediata do indivíduo.
Os mecanismos de defesa utilizados pelos pacientes fóbicos incluem: o deslocamento, isto é, o conflito é deslocado da pessoa para um objeto ou situação aparentemente insignificante que passa a despertar a ansiedade de alerta da pessoa; e o evitamento, ou seja, a pessoa evita o objeto ou situação fóbica.
Otto Fenichel postulou que a ansiedade fóbica pode estar escondida por atitudes e padrões comportamentais que representam uma negação, isto é, a pessoa passa a confrontar e dominar o que teme. Os adeptos dos esportes perigosos, por exemplo, podem estar exibindo comportamento contrafóbico.
Watson acredita que o estímulo, resposta do reflexo condicionado, esteja implicado na gênese da fobia. Isso significa que a ansiedade é despertada por um estímulo naturalmente assustador que ocorre associado a um segundo estímulo neutro. Se esses dois estímulos ocorrem juntos por várias vezes, com o passar do tempo o estímulo neutro adquire por si só a capacidade de causar ansiedade.
As fobias caracterizam-se pelo aparecimento de ansiedade severa quando o paciente é exposto a uma situação ou objeto fóbico específico. Surgem sintomas somáticos (rubor, por exemplo) e mentais. Dependência de álcool e drogas e transtorno depressivo maior podem ser aspectos associados agravantes dos transtornos fóbicos.
A exposição ao estímulo fóbico provoca reação imediata de ansiedade, podendo assumir a forma de um Ataque de Pânico.
O objeto ou a situação é evitada ou tolerada com intensa ansiedade.
A pessoa reconhece seu medo como excessivo ou irracional.
O medo interfere significativamente na rotina normal da pessoa.
A ansiedade não é melhor explicada por outro transtorno mental.
Fobia específica e Fobia social precisam ser difenciadas do medo apropriado e da timidez normal, respectivamente. O DSM- IV exige que os sintomas comprometam a capacidade de funcionar apropriadamente.
Deve ser feito o diagnóstico diferencial entre fobia e transtornos orgânicos (intoxicação como alucinógenos, tumores do SNC) ou psiquiátricos ( esquizofrenia, depressão maior, transtorno obcessivo - compulsivo, transtorno da personalidade esquizóide).
A hipnose, a terapia de apoio e a terapia familiar podem ser úteis no tratamento dos transtornos fóbicos.
Os tratamentos das diferentes formas de fobias diferem bastante conforme a linha que se siga. Assim, a abordagem psiquiátrica difere da psicanalítica tanto na compreensão das origens, como no estabelecimento das formas de se tratar. Outras linhas psicológicas encaram o tratamento das fobias através de diferentes técnicas.
O que está em jogo numa neurose é o conflito existente entre o desejo pelo prazer e os mecanismos defensivos contrários a esse desejo. A base das neuroses é a repressão de uma idéia que causa conflito.
Ao longo de sua obra, Freud desenvolveu duas teorias sobre a origem da angústia, logo das próprias fobias. Na primeira, ele ressalta que a pulsão sexual, ou libido, é transformada em angústia, como decorrência de um conflito. Por exemplo, a libido que estava colocada em um objeto de amor que causava um conflito, no caso os pais, é redirecionada para um outro objeto que passa a ser temido . Somente em 1926, Freud formula a segunda teoria sobre a angústia: é o medo da castração que vai produzir a repressão da idéia conflituosa, assim, toda a angústia se relaciona à castração e aos seus medos.
Segundo o psicanalista francês Jean Laplanche, no Vocabulário de Psicanálise, a Neurose de Angústia é uma neurose atual, caracterizada pela acumulação de uma excitação sexual que se transformaria diretamente em sintoma, sem passar pelo psiquismo. Essa Neurose não deve ser confundida com a Histeria de Angústia (outro nome dado à fobia, por Freud, para destacar as suas semelhanças com as demais histerias, como a de conversão).
Contudo, hoje, para se compreender a manifestação dos sintomas fóbicos, as duas teorias da angústia se complementam. Assim, os quadros de fobia, sejam de que tipo for, devem ser tratados com a mesma técnica, ou seja, para a Psicanálise, está em jogo o desejo sexual, as culpas e, a partir daí, surgem os sintomas neuróticos. A Psicanálise vai estar lidando com todos esses aspectos inconscientes, ampliando a rede associativa das pessoas, para que os conflitos possam ser compreendidos e superados, eliminando-se, assim, os sintomas fóbicos.
3.2 NEUROSE OBSSESSIVO-COMPULSIVA
A neurose obsessivo compulsiva é a chamada neurose das manias, são aqueles quadros onde as pessoas tem manias. Mania de limpeza é a mais característica, mas ela pode se expressar de muitas outras maneiras. Mania de ordem , manias de colecionador, superstição, mania de contar as coisas, fazer contas com as chapas de carro, mania de trancar e reverificar se trancou as portas e praticamente todas as outras manias, hábitos(não vícios) que se possa imaginar.
A mania fica caracterizada como doença, como neurose, quando a pessoa tem a necessidade de repetir os seus atos de forma compulsiva (ou seja a pessoa não consegue se controlar, não depende de sua vontade, ela faz sem querer ou sem perceber ou ainda não consegue impedir o ato pela sua vontade, por isso o nome compulsiva, obrigatória), repetidamente. Aliás, todas as formas de repetição compulsiva, podem ser caracterizadas como "manias".
As pessoas que tem estes sintomas costumam ter uma personalidade muito própria. São pessoas extremamente escrupulosas (tem uma preocupação na mente de não provocar problemas), costumam ser formais e distantes no relacionamento, frios afetivamente podem ou não ser pessoas arrogantes. Costumam ser autoritários quando ocupam postos de liderança e temerosos e tímidos quando não estão nesta posição. Intimamente são medrosos embora não admitam, fazendo um tipo de fortes. Não costumam ser sociáveis, tendo poucos amigos. Tem um comportamento normalmente calmo ou retraído, mas as vezes tem explosões que podem ser surpreendentes e até assustadoras (pela agressividade e violência). São pessoas metódicas, as vezes exageradamente perfeccionistas, sendo que alguns são muito insistentes embora a maioria desista com facilidade. Costumam ser indecisos. Controladores, tem o sentimento profundo que se não cuidarem de forma adequada das pessoas e situações a sua volta, algo de ruim deverá acontecer, e vivem a ilusão que estão controlando estas situações (pelo menos quando estão equilibradas, pois a sensação de descontrole os deixa profundamente ansiosos e até emocionalmente desequilibrados).
Tem um forte sentimento de culpa interior (embora possam não ter consciência disto e nem culpa nenhuma) e na hora das punições e mesmo das autopunições sejam exageradamente cruéis (inclusive consigo mesmo).
Freud, diz que estas pessoas tem sentimentos e pensamentos negativos, uma espécie de tara (e normalmente relacionado a sexo e perversão), se sentem culpados e sujos por estes sentimentos, por isso a necessidade de limpar e organizar tudo como forma de diminuírem o risco do castigo que se sentem merecedores e para tentar compensar o sentimento de sujeira interior.
Neste tipo de Neurose idéias, sentimentos ou condutas são vividas como forçadas (compulsivas), como se impondo ao sujeito, por mais que ele lute contra elas e as ache absurdas. O indivíduo se sente obrigado a pensar aquelas idéias ou ter aquela conduta porque se assim não for sobrevem a crise de angústia. Muitas vezes o sujeito engendra meios de se defender da obsessão, e estes por sua vez se tornam também obsessivos.
Na neurose obsessivo-compulsiva existe o emprego de formação reativa, ou seja, utiliza sentimentos de complexos afetivos diametralmente opostos, atitudes contrárias, tais como o desejo de sujar-se e a preocupação com a limpeza.
Na etiologia da neurose obsessivo-compulsiva temos o padrão de personalidade, os fatores ambientais e, basicamente, o conflito eterno entre controle e descontrole.
Psicanaliticamente falando, o obsessivo-compulsivo tem superego hipertrofiado e hiperatuante que reprime quase todos impulsos do ID.
A neurose obsessivo-compulsiva pode, além de confundir-se com a esquizofrenia, camuflar os sintomas desta.
Obsessões são pensamentos ou idéias, impulsos, imagens, cenas, que invadem a consciência de forma repetitiva, persistente e estereotipada seguidos ou não de rituais destinados a neutralizá-los. São experimentados como intrusivos, inapropriados ou estranhos pelo paciente em algum momento, ao longo do transtorno, causando ansiedade ou desconforto acentuados. A pessoa tenta resistir a eles, ignorá-los ou suprimi-los com ações ou com outros pensamentos, reconhecendo-os, no entanto, como produtos de sua mente e não como originados de fora. Não são simplesmente medos exagerados relacionados com problemas reais.
Pensamento obsessivo é a invasão da consciência por um pensamento não desejado, de uma forma insistente, repetida e permanente, que o paciente reconhece como seu, mas que por mais que ele lute para se livrar, não consegue. Esse pensamento intruso varia muito: pode ser uma imagem mental representada, ou uma idéia (como dúvidas, temores), ou palavras e cifras, ou um tipo de problema.
Se atribui ao caráter do obsessivo os seguintes traços:
a) Tendência aos escrúpulos, a abulia e a dúvida;
b) Tendência a crises morais da consciência, principalmente na infância e adolescência;
c) Timidez e inibição nos contatos sociais;
d) Organização e meticulosidade;
e) Necessidade de regulamentar tudo;
f) Avareza, obediência e submissão.
Compulsões são comportamentos repetitivos (p.ex.lavar as mãos, fazer verificações), ou atos mentais (rezar,contar, repetir palavras ou frases) que a pessoa é levada a executar em resposta a uma obsessão ou em virtude de regras que devem ser seguidas rigidamente. Os comportamentos ou atos mentais são destinados a prevenir ou reduzir o desconforto gerado pela obsessão, prevenir algum evento ou situação temidos e em geral não possuem uma conexão realística ou direta com o que pretendem evitar, ou são claramente excessivos .
A atividade compulsiva - do mesmo modo que com o pensamento, o indivíduo se sente forçado a executar determinado comportamento, tomar determinadas atitudes, de forma repetitiva, e com plena consciência do absurdo. Assim, ele lava as mãos de forma repetida, mesmo sabendo que acabou de lavá-las.
A obssessão é o pensamento negativo que se repete, a compulsão é o ato físico que devolveria a segurança para a pessoa.
3.2.1 Transtorno Obssessivo Compulsivo - TOC
O TOC é uma doença crônica e de evolução muito variável. Ela tanto pode surgir de forma abrupta, após algum evento desencadeante, ou surge insidiosamente sem que esteja associada à algum evento estressor importante. A evolução pode ser com piora, estabilização dos sintomas ou apresentação sob forma de crises episódicas. As características fundamentais dos pacientes portadores do TOC, são as Compulsões e Obsessões.
Entretanto esses sintomas costumam estar presentes em vários outros quadros psiquiátricos, notadamente nos quadros afetivos depressivos e ansiosos. Algumas características podem ser apontadas como sugestivas desses sintomas serem, de fato, de natureza primária, ou seja, de refletirem realmente um Transtorno Obsessivo-Compulsivo. A chamada dúvida patológica é um sintoma marcante da obsessão. Normalmente o paciente é extremamente inseguro em relação à seu arbítrio, tortura-se diante da possibilidade de fazer ou não fazer, se está certo ou errado. Torna-se, assim, extremamente indeciso e incapaz para decidir-se.
O paciente com TOC, costuma ter também uma preocupação exagerada com eventos pouco prováveis de causar-lhe algum dano, tais como a contaminação, roubo, perdas, etc., preocupações estas que acabam obrigando-o a lavagens, recontagens, rechecagens, etc.
Também o constante sentimento de que algo está ainda faltando, incompleto ou imperfeito acaba fazendo com que esse paciente tenha extrema dificuldade prática para concluir tarefas. Vem dessa incerteza patológica a necessidade de repetição, de lavar novamente, de contar de novo. Acredita sempre que o gás não está bem fechado, que as mão não estão tão limpas, etc.
Acompanhando a manifestação central ou a idéia obsessiva desse transtorno, deve haver sempre um sentimento de medo e\ou ansiedade. Tal sentimento desagradável freqüentemente leva a pessoa a tomar medidas contra a idéia ou impulso inicial, gerando assim o ato compulsivo ou compulsão. Observamos ainda, no Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o reconhecimento por parte do paciente, do absurdo e da irracionalidade de suas idéias e de seus atos compulsivos bem como da impossibilidade de combatê-los. Estes fatos, por si só, já são suficientes para proporcionar grande ansiedade.
Kaplan delimita quatro padrões sintomáticos principais no Transtorno Obsessivo-Compulsivo pela ordem de freqüência e que, de fato, constatamos na prática clínica quotidiana:
a) Obsessão de contaminação, seguida de banhos ou da higiene das mãos;
b) A obsessão da dúvida seguida da compulsão para verificação Várias são as situações onde o indivíduo obsessivo é incomodado por sentimentos de culpa por ter negligenciado alguma coisa, por isso, a falsa impressão do perfeccionismo e meticulosidade;
c) Pensamentos obsessivos meramente invasivos de temática extremamente variável; pensamentos libidinosos e obscenos dirigidos à objetos de veneração e respeito;
d) Lentidão obsessiva ou pensamento persistente de criteriosa meticulosidade na execução das atividades corriqueiras transformando cada atividade quotidiana numa verdadeira liturgia de perfeição e ordem.
O Transtorno obsessivo-compulsivo consiste na combinação de obsessões e compulsões. Obsessões são pensamentos recorrentes insistentes que se caracterizam por serem desagradáveis, repulsivos e contrários à índole do paciente. Por exemplo uma pessoa honesta tem pensamentos recorrentes de roubo, trapaça e traição, uma pessoa religiosa tem pensamentos pecaminosos, obscenos e de sacrilégios. Os pensamentos obsessivos não são controláveis pelos próprios pacientes. Ter um pensamento recorrente apenas pode ser algo desagradável, como uma musica chata ou um problema não resolvido, mas ter obsessões é patológico porque causa significativa perda de tempo, queda no rendimento pessoal e sofrimento pessoal. Como o paciente perde o controle sobre os pensamentos, muitas vezes passa a praticar atos que por serem repetitivos tornam-se rituais, que muitas vezes têm a finalidade de prevenir ou aliviar a tensão causada pelos pensamentos obsessivos.
As compulsões são gestos, rituais ou ações sempre iguais, repetitivas e incontroláveis. Um paciente que tente evitar as compulsões acaba submetido a uma tensão insuportável, por isso sempre cede às compulsões.
No transtorno obsessivo-compulsivo os dois tipos de sintomas quase sempre estão juntos mas pode haver a predominância de um sobre o outro, um paciente pode ser mais obsessivo que compulsivo ou mais compulsivo do que obsessivo.
O transtorno obsessivo-compulsivo é classificado como um transtorno de ansiedade por causa da forte tensão que sempre surge quando o paciente é impedido de realizar seus rituais. Mas a ansiedade não é o ponto de partida desse transtorno como nos demais transtornos dessa classe, o ponto de partida são ou os pensamentos obsessivos ou os rituais repetitivos. Há formas mais brandas desse distúrbio nas quais o paciente tem apenas obsessões ou as compulsões são discretas, e formas onde predominam compulsões sendo as obsessões pouco significativas.
Os sintomas obsessivos mais comuns são:
e) Medo de contaminar-se por germes, sujeiras etc.;
f) Imaginar que tenha ferido ou ofendido outras pessoas ;
g) Imaginar-se perdendo o controle realizando violentas agressões ou até assassinatos;
h) Pensamentos sexuais urgentes e intrusivos;
i) Dúvidas morais e religiosas;
j) Pensamentos proibidos;
Os sintomas compulsivos mais comuns são:
a) Lavar-se para descontaminar-se;
b) Repetir determinados gestos;
c) Verificar se as coisas estão como deveriam, porta trancada, gás desligado, etc.;
d) Tocar objetos;
e) Contar objetos;
f) Ordenar ou arrumar os objetos de uma determinada maneira;
g) Rezar.
3.3 NEUROSE HISTÉRICA
A neurose histérica é a mais complexa e difícil de se diagnosticar e tratar, acometendo cinco mulheres para cada homem e pode ser fruto da repressão sexual no estágio paterno do complexo de Édipo.
3.3.1 Histeria
“A histeria faz parte de uma classe de neuroses que apresentam quadros clínicos muito variados. As duas formas mais bem identificadas são a histeria de conversão (em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais mais diversos - exemplo: crise emocional com teatralidade ou outros mais duradouros como anestesias, paralisias histéricas, sensação de” bola" faríngea, etc.), e a histeria de angústia (em que a angústia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior - fobias). (Laplanch, Vocabulário da Psicanálise, 2001).
Pretende-se encontrar a especificidade da histeria na predominância de um certo tipo de identificação e de certos mecanismos (particularmente o recalque, muitas vezes manifesto), e no aflorar do conflito edipiano.
A histeria é uma psiconeurose cujos conflitos emocionais inconscientes surgem na forma de uma severa dissociação mental, ou como sintomas físicos; tais como: dormência/paralisia de um membro, perda de voz ou cegueira, independente de qualquer patologia orgânica ou estrutural conhecida; ou seja, a pessoa desfruta de plena saúde física. O termo origina-se do grego, hystéra, que significa útero. Antigamente se pensava que o útero vagava pelo corpo e a histeria era considerada uma moléstia especificamente feminina, atribuída a uma disfunção uterina. Hoje já se sabe que a histeria pode se manifestar tanto em homens quanto em mulheres, sendo mais comum na adolescência.
O estudo sobre a histeria demonstra que ela vem sendo pesquisada desde a Antiguidade Grega com Hipócrates. Sua delimitação foi alvo de divergências entre alguns estudiosos. Babinski, por exemplo, acreditava que a histeria era caracterizada pela ausência de lesões orgânicas e que seus sintomas eram decorrentes de sugestões e de simulações. Já Charcot defendia a histeria como uma doença de sintomas bem definidos.
A histeria também foi a principal doença investigada por Freud e que acabou dando origem à psicanálise. A histeria pode ser dividida em duas manifestações fundamentais: a histeria conversiva e a histeria dissociativa. Freud considerava que os sintomas histéricos ocorriam quando uma grande carga de afeto e de emoção ficava reprimida sem nenhuma possibilidade de expressão. Freud acreditava que os pensamentos perturbadores e conflituosos eram mantidos no inconsciente; mas, apesar de reprimidos, levavam a um grande sentimento de culpa e ansiedade que acabavam interferindo na atividade mental consciente, consumindo energia psíquica vital, que estavam em busca de uma liberação. Impossibilitadas de manifestar todos estes sentimentos angustiantes, as pessoas apresentam os sintomas somáticos, como: paralisia total, tremores, tiques, contrações ou convulsões. Afonia, tosse, vômito, náusea e soluços são muitas vezes de origem histérica.
O neurologista francês, Jean Martin Charcot, interessado no tratamento da histeria, considerava-a como uma verdadeira moléstia causada por pensamentos indesejáveis e mórbidos que eram reprimidos, podendo produzir manifestações físicas de origem psíquica.
Joseph Breuer, médico vienense, também adotava a hipnose não somente para acabar com os sintomas, mas também para descobrir as causas profundas do sofrimento dos seus pacientes. Ele percebeu - através do tratamento de Anna O. – que; quando os pacientes falavam de seus pensamentos e sentimentos que originaram, os sintomas histéricos iam aos poucos desaparecendo. Através da hipnose, os pensamentos e as lembranças ligadas aos sintomas chegavam eventualmente à consciência.
A teoria de Freud sobre a histeria, que contou com a colaboração de Breuer, considera que essa neurose era causada por lembranças reprimidas de grande intensidade emocional. Afirma-se que, atualmente, os sintomas histéricos estão mesclados com outros tipos de distúrbios neuróticos.
Para tentar explicar essa patologia os médicos afirmavam ser a Histeria uma doença funcional do Sistema Nervoso; porém, não foi possível identificar nada errado com o cérebro destes pacientes - mesmo após um estudo detalhado, inclusive de seu cérebro após a sua morte ou através de qualquer outro exame feito em vida.
Freud relata que a hipnose seria uma das formas de cura para a histeria, entretanto, no decorrer do mesmo, ele chega a afirmar que:
“o método hipnótico não surte efeito nos neuróticos "... são difíceis de hipnotizar, de modo que a luta contra as forças poderosas com que a doença se consolidou na vida anímica tem de ser travada, não com a totalidade da influência hipnótica, mas apenas com fragmento dela". (Freud 1890).
Observa-se, portanto, que Freud muda de opinião. Ele troca a confiança extremada pela hipnose por uma certa desconfiança sobre a sua eficácia no tratamento dos portadores de neuroses. Porém, no mesmo texto, o autor mostra um caminho de esperança para os indivíduos que sofrem com a histeria. Esse caminho seria pela palavra, a qual, segundo Freud, tem um poder mágico sobre as pessoas; poder, este, capaz de curar os doentes até mesmo de perturbações graves de origem anímica.
Os sintomas, segundo Freud, podem se revezar entre si e não necessariamente são os mesmos para todos os indivíduos, apesar de se tratar da mesma patologia. Estes sinais de padecimento estão claramente ligados às excitações, comoções, preocupações, etc. e podem desaparecer sem deixar vestígio algum de como vieram e de como se foram.
Após isso, pôde-se fazer acreditar que os sinais da doença proviam da influência do anímico sobre o corpo e a ciência médica voltou um pouco a aceitar que o anímico influencia o corpo, podendo inclusive lhe causar patologias tais como a histeria.
Para o tratamento da histeria o método proposto por Freud foi, inicialmente, a hipnose; porém, este método é questionável; pois a pessoa não interfere no seu processo terapêutico de maneira consciente e, portanto, após algum tempo pode voltar a apresentar os sintomas.
Freud percebeu que a relação médico-paciente deveria ser mudada e que era necessário tornar consciente o material inconsciente para que o tratamento dos indivíduos histéricos se desse com maior eficácia. A nova técnica adotada por Freud a partir daí recebeu o nome de Psicanálise e é empregado até hoje em processos terapêuticos, sob o método da associação livre - que implica em deixar o paciente falar tudo o que ele quiser - no momento da análise.
Desta forma, observa-se que os processos anímicos são afetivos e esses processos se manifestam também através do corpo, mesmo que de uma maneira sutil. Quando se está triste pode-se ficar sem vontade de comer; quando estamos alegres podemos apresentar muitos sinais de juventude, como risos constantes, excitação motora, etc. Os afetos também podem influenciar nas patologias do físico, como se pode observar em pacientes terminais ou com doenças graves que conseguem melhorar por causa da influência do anímico ou emocional. A histeria, portanto, também está ligada a processos psíquicos.
O grande mal da histeria é que a pessoa vai incorporando este sentimento de fragilidade interior que faz com que a pessoa vá se sentindo cada vez mais fraca até despencar em estado de Depressão. O tratamento da histeria é o da psicoterapia, nestes casos, embora as medicações possam ajudar de forma alguma são essenciais no tratamento. A pessoa terá que aprender os seus sentimentos e suas simbologias correspondentes e aprender a lidar com eles de forma coordenada.
3.3.2 Neurose histérica conversiva
Apresenta em seu bojo sintomatológico a negação, repressão, deslocamento, identificação e simbolização e caracteriza-se pela necessidade do neurótico em chamar a atenção sobre si, de seduzir, de vislumbrar e de conquistar a piedade dos outros, usando para isso, doenças com utilização de órgãos alvo, usa de comportamentos frágeis e delicados para atrair os outros.
Na histeria a angústia é expressada através do corpo, com sintomas psicomotores e sensoriais constituindo-se na conversão, Por isso Freud se referir a esse tipo de neurose como histeria de conversão. Uma outra forma de expressão somática da angústia é a somatização, onde as disfunções se dão como distúrbios neurovegetativos e em órgão sob o controle do Sistema Nervoso Autônomo..
Freud explica a histeria conversiva da seguinte maneira: Na histeria conversiva haveria um conflito inconsciente, uma ansiedade que não consegue emergir para o consciente por mecanismos repressivos da própria mente(Superego) mas que contém uma energia que precisa se manifestar e acaba eclodindo como um sintoma físico que mantém uma relação simbólica com o conflito. Uma maneira de entender o sintoma histérico é saber que as pessoas ansiosas sentem com muita intensidade os estímulos que acontecem ao seu redor. Esta intensidade faz com que elas não consigam decifrar ou elaborar o que esta ocorrendo, o que faz com que a sua ansiedade aumente a níveis muito altos, tensionando ou perturbando funcionalmente a operação de órgãos que de alguma maneira esteja relacionado com o Sistema Nervoso Central, e só quando a tensão ou ansiedade cede é que o sintoma desapareceria.
3.3.3 Neurose histérica dissociativa
Caracteriza-se por uma crise sintomática composta, basicamente, de dupla personalidade, sonambulismo, escrita automática ou psicografia, transe mediúnico e evidenciando-se a projeção da personalidade que lhe é frustrante, em outra que agrade o indivíduo, a qual utiliza em lugar daquela que lhe é fonte de angústia e de ansiedade.
Na histeria dissociativa, o estímulo é sentido de forma tão intensa que quebra a funcionalidade da própria mente, descoordenando-a e levando a pessoa a atos dissociados da realidade que a cercam por mais ou menos tempo. Um monte de atitudes desconexas, que não resolvem a situação e que mesmo assim a pessoa não consegue impedir. As vezes estas dissociações são tão fortes que a pessoa entra em estados transitórios de loucura.
3.4 NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA
A diferença entre as reações de transferência e a neurose de transferência, pode ser compreendida do seguinte modo:
“Na Neurose de transferência, todo o comportamento patológico do paciente vem se recentrar na sua relação com o analista. Poderíamos dizer que por um lado, a Neurose de Transferência coordena as reações de transferência a princípio difusas e por outro lado, ela permite que o conjunto dos sintomas e comportamentos patológicos do paciente assuman uma nova função referindo-se à situação analítica.”(Fenichel, 1981)
“As peculiaridades da transferência para o médico, graças as quais ela excede, em quantidade e natureza, tudo o que se possa justificar em fundamentos sensatos ou racionais, tornam-se inteligíveis se tivermos em mente que essa transferência foi precisamente estabelecida não apenas pelas idéias, antecipadas conscientes, mas também por aquelas que foram retidas ou que são inconscientes” (Freud, 1911)
Freud (1923), lança em seus escritos, duas peculiaridades da transferência, onde diz que não compreende por que a transferência é tão mais intensa nos indivíduos neuróticos, e também por que, na análise, a transferência aparece como a resistência mais poderosa ao tratamento, pois a transferência acompanha a cada associação isolada, cada ato da pessoa que está em tratamento, tem de ser levado em conta a resistência e representar uma conciliação entre as forças que estão lutando no sentido do restabelecimento e as que se opõem à ele. Por isso, é necessário manter em mente a suspeita de que tudo que interfere com a continuação do tratamento, pode ser resistência.
Pode-se concluir, citando um trecho de texto sobre a transferência, que de certa forma resume todo o processo da análise e o mecanismo transferencial.
"Esta luta entre o médico e o paciente, entre o intelecto e a vida institual, entre a compreensão e a procura da ação, é travada, quase que exclusivamente nos fenômenos da transferência. É neste campo que a vitória tem de ser conquistada. Vitória cuja expressão é a cura permanente da neurose. Não se discute que controlar os fenômenos da transferência representa para o psicanalista as maiores dificuldades; mas não se deve esquecer que são precisamente eles que nos prestam o inestimável serviço de tornar imediatos e manifestos os impulsos eróticos ocultos e esquecidos do paciente. Pois, quando tudo está dito e feito, é.” ( Freud ,1904 )
"A transferência designa em psicanálise, o processo pelo qual os desejos inconscientes, se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com ele e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se de uma repetição de protótipos infantis vivida com sentimentos de atualidade acentuada, ela é reconhecida como o terreno em que se dá o problema de um tratamento psicanalítico, pois são a sua instalação, as suas modalidades, a sua interpretação e a sua resolução que caracterizam este.”( Freud,1911 )
Sabe-se portanto, que o termo transferência não pertence somente ao vocabulário da psicanálise, possuindo um sentido geral. O encontro das manifestações da transferência em psicanálise, que foi permitido reconhecer a ação da transferência, tanto se encontre na base da relação em causa (Sugestão), ou ainda em outros papéis importantes, como a de professor – aluno, ou médico – paciente.
Mas, Freud (1905), acreditava que a transferência não fazia parte da essência da relação terapêutica, e não assimilava o conjunto do tratamento na sua estrutura e na sua dinâmica a uma relação de transferência. Freud, ainda, diz que:
“A transferência são reimpressões, cópias das moções a das fantasias que devem ser despertadas e tornadas conscientes à medida dos progressos da análise, o que é característico da sua espécie, é a substituição pela pessoa do médico de uma pessoa anteriormente conhecida”(Freud)
Para Freud, a transferência é um dos principais obstáculos para a rememoração do que está recalcado no paciente, onde o mecanismo da transferência para o analista desencadeia- se no momento em que alguns conteúdos recalcados, e que seriam importantes, ameaçam ser revelados pelo paciente. O define como um conceito técnico, por assinalar uma modalidade especial do desenvolvimento do tratamento psicanalítico e, segundo essa modalidade, a enfermidade originária se transforma em uma nova que se canaliza para o terapeuta e para a terapia. A neurose de transferência se contrapõe à neurose narcisística e é, portanto, um conceito psicopatológico.
Os dois significados do termo não são discriminados em geral, entre outras razões porque o próprio Freud pensou sempre que as neuroses narcisísticas careciam de capacidade de transferência e ficavam, portanto, fora dos alcances do seu método.
Com o começo do tratamento, a enfermidade sofre um giro notável que cristaliza no próprio tratamento.
"Vemos claramente que a enfermidade do analisado não pode cessar com o começo da análise, e que não devemos tratá-la como um fato histórico, mas como potência atual. Pouco a pouco, vamos atraindo à nós cada um dos elementos dessa enfermidade e fazendo-os entrar no campo de ação do tratamento e, enquanto o enfermo os vai vivendo como algo real, nós vamos praticando neles nosso trabalho terapêutico, que consiste, sobre tudo, na referência ao passado."(Freud –Recordar, repetir, elaborar )
"Durante um tratamento psicanalítico, se interrompe regularmente a produção de sintomas. Porém, a produtividade da neurose não se extingue com ele, mas atua na criação de uma ordem especial de produtos mentais, inconscientes na sua maior parte, ao que podemos dar o nome de transferências” (Freud, 1905, "Epílogo de Dora")
Freud concebe a neurose de transferência como um efeito especial do início do tratamento psicanalítico em que cessa a produção de novos sintomas e surgem em substituição a eles outros novos que convergem para o analista e seu ambiente.
Os sintomas mudam (diminuem ou aumentam) em relação à situação analítica, os afetos, e em especial a ansiedade, se dirigem ao analista, recrudescem velhos sintomas e hábitos, as reações afetivas tendem a se canalizar para a análise e não fora. A neurose de transferência, enfim, é definida como reconhecimento da presença do analista e do efeito da análise.
A situação analítica se estabelece quando aparece a neurose de transferência e, vice-versa, quando a neurose de transferência se demarca da aliança terapêutica, a situação analítica se constitui.
Para que se constitua a situação analítica (e se ponha em marcha o processo), é necessário que exista, basicamente, como ponto primário, o fenômeno neurótico, tela na qual se pode enxertar eventualmente situações psicóticas, etc. A neurose de transferência não pode estar ausente: se existisse uma psicose pura, não poderia haver análise: deve existir uma neurose, que de alguma maneira a contenha.
3.5 NEUROSE DE CONTRATRANSFERÊNCIA
Pode-se considerar que o correlato de transferência do paciente é sempre uma neurose de contratransferência ou que a contratransferência assume um caráter psicótico, de drogadição, perverso ou psicopático, complementar ao de transferência. É natural que a resposta do analista tenha o mesmo signo que a transferência do analisando.
O analista tem que ficar incluído no conflito e tem, com certeza, que resgatar com a interpretação. Apesar de que a posição contratransferencial implica um maior compromisso do analista, posição e ocorrência não devem ser entendidas como fenômenos diferentes na sua essência. Quanto mais fluída for a resposta contratransferencial, mais fácil será naturalmente para o analista compreendê-la e superá-la.
Otto Kernberg assinala com razão que a reação contratransferencial ocorre como um contínuo em relação à psicopatologia do paciente e vai, assim, desde o pólo neurótico do conflito ao psicótico, de modo que, quanto mais regressivo for o paciente, maior será sua contribuição na relação contratransferencial do analista. E acrescenta que, nos pacientes boderline e em geral nos muito regressivos, o analista tende a experimentar emoções intensas, que têm mais a ver com a transferência violenta e caótica do paciente que com os problemas específicos do passado do analista.
O fenômeno contratransferencial não depende tanto da forma da transferência, mas da disposição do analista.
3.6 NEUROSE NARCÍSICA
Foi Havelock Ellis, em 1898, quem fez uma primeira alusão ao mito de Narciso, a propósito das mulheres cativadas por sua imagem no espelho. Mas foi Paul Näcke que, em 1899, introduziu pela primeira vez o termo ‘narcisismo’ no campo da psiquiatria para designar um estado de amor por si mesmo, que constituiria uma nova categoria de perversão.
Freud já fazia uso do conceito de narcisismo antes de introduzí-lo em 1914 em “Sobre o narcisismo: Uma introdução”, onde o articula mais profundamente na teoria psicanalítica. O termo narcisismo aparece em sua obra pela primeira vez em 1910 (Três Ensaios) para explicar a escolha de objeto nos homossexuais. Freud afirmou que estes, tomam a si mesmos como objeto sexual, já que procuram jovens que se pareçam com eles, e a quem possam amar como suas mães o amaram. Em Leonardo Da Vinci e uma lembrança da sua infância (1910), o conceito narcisismo vem fundamentar um tipo de identificação, quando, ante a perda de um objeto, o ego se transforma à imagem e semelhança daquele.
No Caso Schreber (1911) Freud propôs o narcisismo como “uma fase da evolução intermediária entre o auto-erotismo e o amor de objeto”. O sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como objeto de amor. Aqui o narcisismo aparece também como um ponto de fixação das psicoses, denominadas “neuroses narcísicas”.
Em Totem e Tabu, 1912, aparece como um processo de retração da libido ao ego; e como uma série de atitudes, estados ou traços atribuídos ao narcisismo, como a megalomania e a onipotência do pensamento. (12)
É, no entanto, somente em “Sobre o Narcisismo: Uma introdução”, que o conceito de narcisismo é inserido no conjunto da teoria psicanalítica, do ponto de vista dos investimentos libidinais. No caso da psicose (neurose narcísica), por exemplo, Freud discute a possibilidade que a libido tem de reinvestir o ego desinvestindo o objeto. O narcisismo também aparece no campo da transferência e do trabalho analítico, no que se refere a insusceptibilidade à influência de certos pacientes, causada por um alto grau de narcisismo. É estabelecido um equilíbrio entre a “libido do ego” (investida no ego) e “libido objetal”: quanto maior o investimento no objeto, mais se dá a retirada da libido sobre o sujeito e vice-versa.
Aqui, o narcisismo não é posto somente como uma fase evolutiva do desenvolvimento libidinal, mas como uma “condição” do psiquismo que nenhum investimento objetal permite ultrapassar completamente.
CONCLUSÃO
Com o desenvolvimento do trabalho podemos verificar a força propulsora das neuroses atuando no inconsciente humano.
Vemos o quanto de importância tem a investigação do psicanalista sobre as condições que se desenvolvem os conflitos neuróticos.
O neurótico tem de ser ajudado a descobrir-se, a tomar conhecimento de seus sentimentos e desejos reais, a criar seu sistema pessoal de valores e a relacionar-se com outras pessoas de acordo com seus sentimentos e convicções. E o psicanalista precisa saber quais os passos a dar para ocasionar a modificação desejada.
Já que toda a neurose, não importa quão impessoais sejam os sintomas, é uma desordem do caráter, a missão da terapêutica é analisar toda a estrutura do caráter neurótico. Por isso, quanto mais claramente conseguimos definir essa estrutura e as suas variações individuais, tanto mais precisamente poderemos delinear o trabalho a ser feito. Isso implica em fazer o paciente chegar a uma compreensão perfeita de seus conflitos, seus efeitos gerais sobre sua personalidade e a responsabilidade específica de cada um deles pelos seus sintomas.
O mais importante passo terapêutico é levar o paciente a ver os efeitos nocivos de seus impulsos e conflitos neuróticos.
O conhecimento do papel desempenhado pelos conflitos nas neuroses e a noção de que eles podem ser resolvidos é a meta da terapêutica analítica. Temos de estar cientes, porém, de que não está no poder do analista transformar o paciente em um ser humano perfeito. Ele pode, contudo, auxiliá-lo a ficar livre para procurar aproximar-se desse ideal. E isto significa dar-lhe também uma oportunidade para amadurecer-se e desenvolver-se.
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